Fátima Irene Pinto - O PODER DA ORAÇÃO


E de repente,
Um doente se curou,
Alguém perdoou ou pediu perdão,
Alguém abriu os braços, estendeu as mãos.

E de repente,
Uma mãe enlutada encontrou consolação,
Um órfão obteve a adoção
E no asilo houve visitas para o ancião.

E de repente,
Uma fera humana retraiu as garras,
Um arrogante considerou a humildade,
Um avarento doou com generosidade.

E de repente,
Um talento escondido aflorou,
A divina singularidade se expressou
E a beleza se fez com majestade.

E de repente,
Um triste deparou-se com a alegria,
Um faminto obteve o pão
E o aflito encontrou a solução.

E de repente,
Reconheceu-se um inocente,
No cárcere um culpado converteu-se
E alhures, alguém superou um vício.

E de repente,
Um trabalhador abençoou o ofício,
Um desempregado achou colocação,
Um lar reafirmou-se na união.

E de repente,
Fez-se paz e luz por toda a Terra,
E qual gigantesca onda, tudo permeou
E o "Verbo" por toda parte ressoou.

Foi um instante fugidio, clarão de um segundo.
É que neste átimo de tempo abençoado,
Alguém em alguma parte do mundo,
Abriu a alma para Deus com sinceridade

E OROU !

Miguel Esteves Cardoso - Como é que se Esquece Alguém que se Ama?




Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar?

Quando alguém morre, quando alguém se separa, como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já não está lá? As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. 

Sim, mas como se faz? Como se esquece? 

Devagar. É preciso esquecer devagar. 

Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!

É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. 

O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou de coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho.Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas.

Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. 

A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso primeiro aceitar. É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. 

Quantos problemas do mundo seriam menos pesados, se tivessem apenas o peso que têm em si: isto é, se os livrássemos da carga que lhe damos, aceitando que não tem solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio.  Nem conhecimento certo da doença do que se padeceu. Muitas vezes só existe a agulha. 

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos  mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 

O esquecimento não tem arte. 

Porque é que é sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais a falta das pessoas de quem amamos? Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças, na esperança de ele se cansar. O cansaço faz-nos precisar delas. 

Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. cansaço é uma coisa que só o amor compreende. A minha mãe. O meu amor. E a felicidade faz-nos sentir pena e culpa de não a podermos partilhar. É por estarmos de uma forma ou de outra sozinhos que a saudade é maior.

Mas o mais difícil de aceitar é que há lembranças e amores que necessitam do afastamento para poderem continuar. Afonso Lopes Vieira dizia que Portugal estava mal, que era preciso exilar-se para poder continuar a amar a Pátria dele. Deixar de vê-la para ter vontade de a ver. Ás vezes a presença do objecto amado provoca a interrupção do amor. E a complicação, o curto-circuito, o entaralamento, a contradição que está ali presente, ali, na cara do coração, impedindo-o de continuar.

As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se. Custa aceitar que os mais velhos, que nos deram vida, tenham de dar a vida para poderem continuar vivos dentro de nós. Mas é preciso aceitar. É preciso aceitar. É preciso sofrer, dar urros, murros na mesa, não perceber.E aceitar. Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração. Perderíamos a religiosidade, a paciência, a humanidade até.

Há uma presença interior, uma continuação em nós de quem desapareceu, que se ressente do confronto com a presença exterior. É por isso que nunca se deve voltar a um sítio onde se tenha sido feliz. 

Todas as cidades se tornam realmente feias, fisicamente piores, à medida que se enraízam e alindam na memória que guardamos delas no coração. Regressar é fazer mal ao que se guardou.

Uma saudade cuida-se. 

Nos casos mais tristes separa-se da pessoa que a causou. Continuar com ela, ou apenas vê-la pode desfazer e destruir a beleza do sentimento, as pessoas que se amam mas não se dão bem, só conseguem amar-se bem quando não se dão. 

Mas como esquecer?

Como deixar acabar aquela dor?

É preciso paciência. É preciso sofrer. É preciso aguentar. Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor. No meio do remoinho de erros que nos revolve as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor, temos de encontrar a raiz daquela paixão,  razão original daquele amor.

As pessoas morrem, magoam-se, separam-se, fazem os maiores disparates com a maior das facilidades. Para esquecê-las é preciso chorá-las primeiro. Esta é uma verdade tão antiga que espanta reparar em como ainda temos esperanças de contorná-la. Nos uivos das mulheres nas praias da Nazaré não há “histeria” nem “ignorância” nem “fingimento”. Há a verdade que nós, os modernos, os tranquilizados, os cools, os cobardes, os armados em livres e independentes, os tanto-me-fazes, os anestesiados, temos medo de enfrentar.


Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas das Caraíbas, livros de poesia- só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar fôlego. Esta dor tem de ser aguentada e bem sofrida com paciência e fortaleza. Ir a correr para debaixo das saias de quem for é uma reacção natural, mas não serve de nada e faz pouco de nós próprios. 

A mágoa é um estado natural. Tem o seu tempo e o seu estilo. Tem até uma estranha beleza. Nós somos feitos para aguentar com ela. Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amamos, de nos vingarmos delas, de nos pormos a milhas, de lhe pormos os cornos, de lhe compormos redondilhas, mas tudo isso não tem mal. Nem faz bem nenhum.

Tudo isso conta como lembrança, tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por Ter sido apanhada na via pública, como um bicho preto e feio, um parasita de coração, uma peste inexterminável barata esperneante: uma saudade de pernas para o ar. O que é preciso é igualar a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu. Para esquecer é preciso dar algo em troca.

Os grandes esquecimentos saem sempre caros. É preciso dar tempo, dar dor, dar com a cabeça na parede, dar sangue, dar um pedacinho de carne (eu quero do lombo, mesmo por cima da tua anca de menina, se faz favor).  mesmo assim, mesmo magoado, mesmo sofrendo, mesmo conseguindo guardar na alma o que os braços já não conseguem agarrar, mesmo esperando, mesmo aguentando como um homem, mesmo passando os dias vestida de preto, aos soluços, dobrada sobre a areia de Nazaré, mesmo com muita paciência e muita má vontade, mesmo assim é possível que não se consiga esquecer nem um bocadinho.

Quanto mais fácil amar e lembrar alguém – uma mãe, um filho, um grande amor – mais fácil deixar de ama-lo e esquece-lo. 

Raio de sorte, ó lindeza, miséria suprema do amor. Pode esquecer-se quem nos vem à lembrança, aqueles de quem nos lembramos de vez em quando, com dor ou alegria, tanto faz, com tempo e paciência, aqueles que amamos com paciência, aqueles que amamos sinceramente, que partiram, que nos deixaram, vazios de mãos e cheios de saudades, esses doem-se e depois esquecem-se mais ou menos bem.

E quando alguém está sempre presente? Quando é tarde. Quando já não se aguenta mais. Quando já é tarde para voltar atrás, percebe-se que há esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar.

Como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar?

Aí está o sofrimento maior de todos. 
O luto verdadeiro.
Aí está a maior das felicidades.

Edson Marques - Mude


Mas comece devagar, porque a direção
é mais importante que a velocidade.
Mude de caminho, ande por outras ruas,
observando os lugares por onde você passa. 
Veja o mundo de outras perspectivas. 
Descubra novos horizontes.

Não faça do hábito um estilo de vida.

Ame a novidade. 
Tente o novo todo dia. 
O novo lado, o novo método, o novo sabor, 
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. 
Busque novos amigos, tente novos amores. 
Faça novas relações. 
Experimente a gostosura da surpresa. 
Troque esse monte de medo por um pouco de vida. 
Ame muito, cada vez mais, e de modos diferentes. 
Troque de bolsa, de carteira, de malas, de atitude.

Mude. 
Dê uma chance ao inesperado. 
Abrace a gostosura da Surpresa.

Sonhe só o sonho certo e realize-o todo dia.

Lembre-se de que a Vida é uma só, 
e decida-se por arrumar um outro emprego, 
uma nova ocupação, um trabalho mais prazeroso, 
mais digno, mais humano. 
Abra seu coração de dentro para fora.

Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.

Exagere na criatividade. 
E aproveite para fazer uma viagem longa, 
se possível sem destino. 
Experimente coisas diferentes, troque novamente. 
Mude, de novo. 
Experimente outra vez. 
Você conhecerá coisas melhores e coisas piores, 
mas não é isso o que importa. 
O mais importante é a mudança, 
o movimento, a energia, o entusiasmo.

Só o que está morto não muda ! 

Marla de Queiroz - Inadequação



Percebi que, na maioria das vezes em que sofro, é por causa de uma sensação de inadequação. É como se eu não conseguisse cuidar direito da minha vida, do meu mundo, da minha rotina, de mim mesma. E passo o dia esperando que chova ou faça sol porque pode ser “culpa” do cenário que não está combinando com o meu estado de espírito naquele momento. Tolice... Logo amanhece e fica tão claro que o Universo não tem absolutamente razão ou possibilidade alguma de se adequar a mim. Eu tenho que me adequar às mudanças constantes_ enormes, bruscas ou sutis e pequenas_ mas sempre relevantes, contínuas.

Hoje eu acordei mais adequada, excentricamente adequada. E passei o dia me divertindo com a minha exuberância emocional. E leve, leve, porque tudo é tão breve. E o dia acabou, e no sábado fez sol, e no domingo choveu e a segunda-feira, para muitos, foi mais um dia preguiçoso, e para mim, uma semana em branco começando. Tudo tão irresistível, dias versáteis com calor e frio e a possibilidade de mudar de figurino para me adequar ao cenário.

Hoje eu senti muito amor pelas coisas, pelas pessoas. E senti saudades sem apegos, eu estava inteira no meu dia. Percebi que sofro, quando me doo em fragmentos, desalinhada, em conta-gotas. Quando não existe entrega no que faço, uma parte de mim fica em algum lugar desconhecido e eu perco muito tempo em busca dessa parte. Quando eu me desconecto da fé e da confiança na vida, eu sinto medo de existir. Por isso, quando sofro, eu me investigo. Porque o sofrimento, definitivamente, sente-se inadequado em quem aprendeu a gargalhar com o corpo todo.


Angela Nassim - Amo-me



Amo meus cabelos
cheirosos e macios
rédeas de teu cavalgar

Amo meus lábios
doces e úmidos
pouso do teu prazer

Amo-me inteira
íntegra e verdadeira
repouso do meu guerreiro.

Andréa Bianchi - Maldita

 
 
Eu sou a praga necessária 
Que nasceu no seu jardim 
Sou a mulher 
que correu mundo 
E veio parar em sua frente 
Não evite o inevitável 
Se entregue 
Depois... 
Torture-se com a alegria 
Desespere-se com sua fraqueza 
Porque eu sairei farta de ti 
E nunca terás a certeza de minha volta 
Não me queira bem, 
Nem mal, 
Apenas me queira eternamente  

Fátima Irene Pinto - Ilusão de Ótica




Talvez o tempo te fale desta lágrima que secou nos meus olhos antes mesmo de escorrer pela minha face.
 
Talvez um anjo te diga dos braços que abaixei desapontada, pois já estavam estendidos à espera do teu abraço.
 
Talvez a parte atemporal do teu ser te recorde que,
sendo tu o lado mais forte, não poderias partir
deixando-me na orfandade de mim mesma.
 
Talvez em sonho tu ouças todas as palavras que agora
ribombam solitárias em versos mudos, esmaecidos,
que aborto sem deixar nascer.
 
Talvez tu voltes tarde demais,
quando o aleijão da tua ausência já estiver incorporado
no meu dia-a-dia.
 
E talvez tardiamente descubras que, embora sendo eu
o lado mais fraco, eu fui a metade mais linda
que não quiseste reconhecer por medo,
deixando-a esquecida no pó da tua estrada de ilusões,
pensando tratar-se de apenas mais uma miragem
ou ilusão de ótica.

No Livro
"Palavras para entorpecer o coração"

Felisbela - Concha (Para a minha ALMA...)



Sou apenas uma concha
No fundo do mar

Vazia de amar
Mas cheia de fé
No teu olhar
Desconhecido

Embrenhado na maré
Insensato e encantador
Martirizando-me
Com palavras de amor…

Sou pérola pura
Guardada em tons
De ternura
Para ti!

Apenas tu irás abrir
O meu sonho
O meu mundo
E tudo o que estiver
Neste mar profundo
Até o meu sorrir!

Confortam-me os teus beijos
De algas e seixos
Com sabor a canela
Mel e hortelã
Que maravilham cada noite
E cada manhã…

Neste azul de delírios
Onde moro tão só
Aguardo que abras
Este tesouro
Pleno de desafios
De ouro
E pó…

E…concha que sou
Marulhando no anseio
Espero que descubras
Onde moro
E volteio

E abras grilhões
E fados distantes
Porque as fases
Da lua
São estes breves
Instantes
Em que falas e escuto
E leio!

Fernanda Guimarães e J.B.Xavier - Malvasias





Ah, que em ti derrame-se esta minha taça
Do amor tinto que tantas vezes sorvi.
No buquê de silêncio dos meus lábios
Degustavas-te em teus tantos aromas...
Renuncio a este provar-te contemplativo
E transbordo-me em ti, ora rubi, ora malvasia,
Deixando em tua boca o gosto dos meus beijos...

Que se proclamem todos os meus delírios,
Todas as minhas ânsias e quereres contidos
Porque sob a fotografia não revelada aos teus olhos
Hei de te levar para sempre em mim, como jóia rara...

Despeço-me da embriagada e frágil lucidez
Desato os nós da minha voz
Ouve o vento que te leva o canto
De um sublime madrigal.
Nele anuncio-te minha saudade absoluta,
Da qual respiro e vivo, sempre como um ébrio
Que só a ti conhece em meu peito...

Quero-te tanto, e sempre e mais.
Que me denunciem as palavras adiadas,
Quando a cada letra pronunciada
Confesse-me a inquietude do interdito

Liberto-me da imensidão das hesitações,
Da calma que me suplica a demasiada espera.
Eis porque ora sou anjo, ora sou fera.
Anseio pelo sopro da descoberta dos teus toques
Pelo perfume desses inadiáveis desejos teus
Que se alinham para o destino do meu corpo...
Lavro minhas mãos para tua pele
Deixo-me em ti, tragada que sou
Por esta sede que bebe da tua boca...


Fonte: http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdeamor/2256216

Mário Quitana - O Auto - Retrato




No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!